domingo, 1 de novembro de 2009

envio notícias do casulo

Dia 7 de novembro, pela manhã, estarei desembarcando em terras cariocas. Na bagagem, desta vez, prometo não encher minha mochila com roupas que sei que não vou usar. Assim, priorizarei as roupas do nosso verão de janeiro, chinelo e tênis, caderno e caneta, livros que têm leitura obrigatória para a conclusão da monografia (prazo de entrega final: um mês e duas semanas) e meu mp3 player com o último cd do Alice in Chains, Morphine e Yann Tiersen. Ah, sim, me esqueci dos presentes: Fardos e fardos da cerveja gaúcha Polar.


Quando chegar ao Rio de Janeiro, provavelmente eu nem acene para o Cristo Redentor ou passeie no bonde da Lapa, pois vou direto à rodoviária. O rumo? Uma cidade chamada Araruama, distante uma hora e tanto da capital. Na minha primeira visita ao interior do Rio de Janeiro, vou abraçar a baiana Jackie e o Gu, amigos que fiz nos encontros estudantis de História e que vão me hospedar no final de semana. O casal, na verdade, agora é um trio, pois o Tavinho nasceu e tem os olhos da mãe. Desculpa, Gustavo, mas é a verdade! :)

Em Aruarama, no sábado, rolará a última etapa do PRO Rally Rio. Mas acredito que barro, terra e carros sujos não sejam uma boa opção para mim. Diz que lá tem praias bem bonitas, embora algumas estejam bastante poluídas. Embora eu prefira ficar olhando o vai e vem da água e conversando com Iemanjá, eu tenho alguma experiência com desgraças ambientais e até já sobrevivi à Praia de Iracema e todos seus coliformes fecais em Fortaleza. Se saí ilesa dessa prova de fogo, qualquer outra poluição é ''fichinha''. E já que eu tenho uma ligação com Santa Maria e, logo, com a gare da Viação Ferroviária da cidade, quero ver a possibilidade de visitar a Estação Ferroviária de Aruarama que, mesmo desativada, espero que não esteja completamente demolida e abandonada.

ACIMA: Automotriz da E. F. Maricá na plataforma da estação de Araruama, provavelmente anos 1940 (Acervo Marcelo Lordeiro)

Na segunda pela manhã eu volto para o Rio de Janeiro e, envolvendo uma logística que ainda não defini, vou me encontrar com a Ana, estudante de História e funcionária pública com bastante orgulho disso. Ela vai me dar pouso e prometeu que seu namorido irá cozinhar sua especialidade em troca de cervejas que vou levar. O apartamento deles fica no bairro Santa Teresa e eu estou ansiosa para andar no bonde histórico. Um pouco receosa estou, isso sim, de subir as eternas e fatigantes ladeiras para comprar um simples pão francês (vou treinar para não soltar um ''me vê um cacetinho, por favor''). Na volta, ao menos espero passar por botecos com alguma roda bonita de música.

Para não dar despesa grande para o Nelson e Ana, no dia 10/11 eu rumo ao lar do meu amigo retirante do cerrado brasileiro, o Bolívar, que vai me hospedar até dia 15/11, quando retorno para o sul do país. Localizada no lendário e boêmio bairro de Copacabana, acho que vou passar ao menos uma vez pela Avenida Atlântica e ver os mosaicos brancos e pretos no calçadão. Na casa do Bolívar, haverá uma reunião com o meu querido Hugo e com a goiana Gabi.



Obviamente eu não vou ao RJ como mera turista endinheirada. O motivo profissional/acadêmico/ambicioso da minha viagem começa no dia 10/11: o 15º Curso Anual do Núcleo de Comunicação Piratininga. O local do curso é óbvio: Rua da Imprensa. Pertinho do Paço Imperial, da Cinelândia, do Museu Nacional de Belas Artes, do Centro Cultural Banco do Brasil e, para meu imenso prazer, do Mercado Popular da Uruguaiana. Nesse curso eu vou conhecer, ouvir e, se a timidez deixar, conversar, com pessoas que já li ou quis ler. Jornalistas do Le Monde Diplomatique, Vito Gianotti (não é jornalista por formação, aliás, não é formado em nada), Dênis de Moraes, Altamiro Borges e João Pedro Stédile são alguns deles. Fora aqueles que eu sei, por intuição ou obviedade, que vou conhecer.

Prometo não levar cuia nem chimarrão, já que quero evitar me fazer de entendedora da cultura gaudéria. Se mal tomo mate quando faz 4º em Santa Maria, não vai ser no Rio 40º que eu vou me aventurar. Peço encarecidamente aos cariocas que não tratem essa gaúcha mal. O sotaque é forte e do interior, e até falo de forma chula, mas isso não significa bairrismo. Favor não levar a mal, e nem confundir com ''orgulho besta gaúcho''. Vou com meus braços abertos e ouvidos atentos, esperançosa como sempre.

Dicas: Site que fala sobre a história e a precarização das estações ferroviárias do Brasil
http://www.estacoesferroviarias.com.br/

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Estudo sobre a insônia: a descrição da incapacidade de dormir



Às nove horas da noite eu começo a preparação da vigília: tomo um chá de erva doce e coloco o pijama. Meia hora depois eu arrumo a cama e desligo a luz do quarto. Ao lado da cama tem um abajur, e o ligo por volta das dez horas. Todo esse aparato fica esperando o meu sono. E eu também. Deito pelas dez horas e ligo para o meu namorado: ‘’estou com tanto sono’’, quase desmaiando de cansaço. Imagino, enquanto falo com ele, que eu vá dormir quando eu desligar o telefone. Dez e trinta eu termino de ler o terceiro capítulo de D.H. Lawrence, autor do livro que a Fran, minha amiga, me emprestou. Desligo a luz. Coloco tampões laranjas nos ouvidos e assim quase não ouço o barulho da bomba de água do prédio vizinho. Quatro anos atrás reclamei na prefeitura, mas nada fizeram para mudar o local do motor no edifício. Arrumo os tampões para que fiquem bem acoplados nas orelhas e eu possa escutar o mínimo possível. Coloco o celular no modo vibratório e pego o tapa olhos azul que meu irmão deixou em casa antes de viajar. Pronto. Relaxo e começo a contar: um, dois, três, quatro carneirinhos. Depois dessa tentativa, e um pouco mais angustiada, inicio uma reza. Uma oração pronta pode te fazer dormir facilmente: pai nosso que estais no céu...(repetindo umas cinco vezes). Adormeço.

3:42 – Desperto. Espio pelo tapa olhos e ainda está escuro no quarto. Não volto a dormir. 5:03 – É odioso perceber os pássaros que anunciam a alvorada.
5:22 – Depois de levantar, ir ao banheiro e perceber meus dedos inchados eu volto a deitar. Quem sabe eu cochilo até às 6:15, quando tenho que levantar.

5:57 – Desisto, vou até tirar o pijama.



Pela primeira vez nesse semestre eu pego a primeira chamada, às 7:30, na disciplina de História da América Contemporânea II. O sono me abate e poderia dormir ali mesmo, deitando a cabeça na classe. A aula termina mais cedo do que eu esperava e pelas 9:15 eu já estou fora do edifício 74 do campus da UFSM. Pelo menos tem sol e não está chovendo, mas tem um vento frio. Caminho com meus dois amigos, Piero e Carin, e os deixo na parada de ônibus. Rumo à biblioteca central, onde tinha programado estudar para a monografia e terminar um texto sobre permacultura. Não vai dar: sono, muito sono. Não sinto fome, nem frio, só sono. Vou tirar um cochilo. Deitar a cabeça no mobiliário das cabines de estudo e dormir. Não consigo, há murmuros, passos e barulho de páginas sendo viradas. Sinto meus olhos bem abertos e, como um animal espreitando o desconhecido, sinto algo no ar. Não é nada. Vou tentar cochilar novamente.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

O lado B das publicações: Zines



Uma folha A4, caneta, tesoura, idéias para manifestar e criatividade. Esses são os elementos básicos para se fazer uma publicação autônoma e não convencional. Trilhando o caminho do ‘’faça você mesmo’’, várias pessoas, na busca de comunicar-se com um grupo específico ou sem a menor pretensão de um público alvo, produzem os chamados zines. Tendo a liberdade de escolha temática, diferenciam-se de uma publicação normal pelo modo como são tratados os temas e também por sua aparência.

A primeira publicação neste estilo foi The Comet, uma produção da década de 1930 que visava principalmente os admiradores de ficção científica. Era, contudo, um material limitado: de fãs para fãs. O movimento punk da década de 70 reinventou a utilização dos zines. O foco passou a ser a criação de um fanzine que falasse sobre as bandas punks em Nova York. Logo, os leitores dos primeiros zines começaram a produzir os seus próprios, e assim vai.

Os jovens, principalmente, são os que elaboram esses materiais e os publicam com baixo número de cópias. Eles não são profissionais da comunicação, entretanto dispõe de algumas moedas para as fotocópias e muitas idéias, seja sobre música, cinema, política, arte e poesia.

Rodrigo Dantas, mais conhecido como ‘’Índio’’, é estudante de História na UFSM e há um ano elabora zines, fora das estruturas comerciais de produção cultural. Por achar que é uma mídia alternativa, independente e artesanal, ‘’Índio’’ afirma que através de sua produção consegue expressar sua individualidade. Com uma tiragem média de 100 exemplares, sua circulação é feita de mão em mão, através de murais no campus da UFSM e em mesas de cafés.

A escolha dos temas é realizada no cotidiano e em suas situações inusitadas. Exemplo: enquanto faz o trajeto campus-centro e observa os transeuntes.

Rodrigo busca, enfim, questionar, provocar e instigar os leitores, a fim de uma reflexão de seus valores individuais. Para isso, aborda temas como liberação sexual e transgressão de julgamentos pessoais. Além de expor suas sensações, já que o zine é expressão do editor e não é feita em função do leitor, Rodrigo encara a atividade como uma forma de sociabilidade, já que conheceu várias pessoas através de sua distribuição.

Se você deseja conhecer os zines é só entrar em contato com o Bar/Distribuidora Shelter, em Santa Maria/RS, pois atualmente Rodrigo é um dos caras que tocam o projeto.