

Até os treze anos eu não sabia nada além de localizar o Uruguai no mapa. Lá em casa tinham muitos mapas e eu realmente tive intimidade com eles desde pequena. Fico bastante braba quando algum homem e, pior, alguma mulher, falam que nós, fêmeas da espécie humana, não sabem ler mapas. Eu sei sim, e me viro tranquilamente. Não que eu seja daquelas experts em orientação que sabem onde fica o norte à noite e com céu nublado, mas como leiga eu sei me virar.
No ano de 1999 eu, depois de minha mãe, me mudei para a cidade de Livramento. Nos seis meses em que eu vivi no Edifício Goiás, não conheci um vizinho qualquer, mas conheci a Cumbia, os uruguaios, o sotaque, falei para um catador de materiais recicláveis que eu queria ser escritora, fiz planos de explodir o banheiro da escola que estudava, tive uma amiga lésbica, tive muitos amigos filhos, por parte de mãe, de Livramento e, por parte de pai, de Rivera.
Todos os dias eu atravessava a rua e me aventurava nas praças de Sarandi. Numa tarde, foi na praça da terceira quadra da rua principal da fronteira, já para o lado uruguaio, que conheci Che Guevara. Era numa camiseta, e o hippie que tentou me vender (e conseguiu) ficou muitos minutos contando a vida do argentino.
Então que hoje, domingo e último dia de janeiro, estou com as malas prontas e a alma lavada para retornar à Rivera. Uruguai não se resume à Punta del Este, ou seja, cidades praianas que vendem em dólar, e freeshops de cidade fronteiriças. Quero ver, mesmo com as rotas bizarras que levam sempre a Montevideo antes de qualquer outra cidade, o que mais tem no Uruguai. Aos poucos eu vou contando para o blog e aos stalkers do mal (blé pra vocês) de plantão.
Visitarei a tumba de Mário Benedetti (e comprarei nos sebos vários outros livros seus), dançarei o ritmo afrouruguaio chamado Candombe e trarei na alma a sensação de ter deixado nas pratas daquele mar, entre Buenos Aires e Colonia, todas as feridas que o homem, como homem, sempre tem.
Em 2007, quando eu namorava o argentino (ops, desculpa aê), uruguaio Jalil, nós fomos ao show de Jorge Drexler em Montevideo. Se tudo der certo, e eu tiver dinheiro e coragem, irei ao farol que deu origem a uma de suas músicas mais belas ''12 segundos de oscuridad''. Você pode (digo DEVE) ouvir:
Un adiós y un besote bien grande a todos que quedam en el infierno de calor en Brasil.
ps: vou viajar sozinha, acho que não deixei bem claro isso. para viagens como essa, o melhor é estar com eu, eu mesma e Júlia.

